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quarta-feira, 8 de março de 2017

{ da mulher }

para ti, mulher todos os dias !


este poema
embora escrito por um homem
diz tudo o que é ser mulher
.
 FM


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
e muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo,
as mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
sentadas nos degraus olhando para eles
 e muitas transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
em árvores cheias de crianças trepando
que se penduram nos ramos – no pescoço das mães –
ainda que as árvores irradiem cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
e geram continuamente.
Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.



(Daniel Faria)

*

«O meu projecto de morrer é o meu ofício». Isto deixou escrito Daniel Faria, o poeta a quem a morte aconteceu cedo demais, com apenas 28 anos. Daniel Faria teria 46 anos, se fosse vivo. No centro da poesia de Daniel Faria está uma vocação mística, uma vocação a que não é estranha, evidentemente, a vocação religiosa do poeta, que morreu quando estava prestes a concluir o noviciado, em 1999, no Mosteiro Beneditino de Singeverga. E o poeta confessa: «Sei bem que não mereço um dia entrar no céu / Mas nem por isso escrevo a minha casa sobre a terra». Conta-se que quando lhe pediram, um dia, que traçasse um auto-retrato, Daniel Faria escreveu que era «um rosto que há-de vir».